domingo, 27 de julho de 2014

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. 
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltavam poucas, rói o caroço. 
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. 
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados. 
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral ou semelhante bobagem, seja ela qual for.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado de deus.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. O essencial faz a vida valer a pena. Basta o essencial!

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Se não é para doer
Então, por que dói?
Se não é de verdade
Por que se aproxima?
Se não é para viver
Por que lança sementes?
Por que, ao mesmo tempo
Silêncio e proximidade?
Eu sei que nada é certo
Sei que não há garantias
Em nada...
Não peço promessas
Não peço futuro
Mas quero o agora
Intenso e verdadeiro
Quero o agora sem pensar
Sem dor
Sem distância.

Oh! Futuro!

Nos conheceremos
e você será exatamente do tamanho do meu sonho
e eu, do seu
Será uma loucura, sensata... mas louca
A paixão irá acontecer
Será bom sentirmos-nos novamente adolescentes
Rompantes... desejos...
Frio na barriga... um certo ciúmes...
E aquela história que jamais casaríamos novamente
irá por terra!
Quereremos casar...
Insanidade pura.
Viajaremos... vários lugares
E casaremos em Vegas
Cover Elvis será o celebrante
numa daquelas capelinhas para turistas.
E voltaremos casados e felizes
E iremos morar juntos
cada um na sua casa.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Nada me atrai tanto, nem ninguém
Sua boca é o melhor que você tem.

domingo, 6 de julho de 2014

Descompasso

Eu quero
Você quer
Nós queremos
O que eu quero
Não é o mesmo
Que você quer
Eu também quero
O que você quer
Mas quero mais
E você, menos
E neste descompasso do querer
Não tenho eu
Não tem você.

*Ana Borzan*

Eu Sei

Eu sei que certas coisas andam fora de moda hoje em dia. Nossos "tempos modernos" estão bem piores do que poderíamos ter previsto vinte anos atrás. Porque sempre pensamos que a "modernidade" chegaria ao ambiente de trabalho, elevaria o estresse, trabalharíamos mais horas que antes, os chefes seriam mais carrascos e aquele filme do Chaplin seria o verdadeiro retrato do período que vivemos, e tudo seria um caos, neste aspecto.
Mas estão muito piores, no aspecto pessoal. No geral, as pessoas perderam a ética, a sinceridade, a confiabilidade. A palavra empenhada pode ser desdita e a assinatura no contrato pode ser contestada, não a assinatura em si, posto que é desenhada à caneta, mas todo o envoltório do conteúdo e momento de assinatura do dito.
O que escrevemos, já não lemos. Talvez porque hoje, para apagar o escrito, basta dar um "del", "excluir a publicação" ou "desfazer a amizade / apagar o contato". Antes, para escrever, empunhávamos papel e caneta e, às vezes, papel e máquina de datilografia. Não havia error-ex. Não havia deletar, excluir, desfazer. Escrevíamos, envelopávamos e postávamos nos Correios. A palavra escrita não tinha volta, a não ser diante de um grande embaraço ou vergonha pessoal ao desdizer tudo aquilo. O mesmo valia para a palavra dita, dizer algo tinha valor. Acreditávamos naquilo que ouvíamos e naquilo que falávamos.
Eu não sei quanto aos outros, mas eu, Ana Borzan, ainda continuo acreditando no que dizem a mim, seja escrito ou dito, seja no papel à caneta ou na tela digital. Importa-me ainda ser uma pessoa sincera e, desta forma, encontrar a recíproca sinceridade. Tenho dado com os "burros n'água", para ser honesta. Não é bolinho. Mas ainda assim sei que não vou perder este desejo de encontrar a reciprocidade dos meus sentimentos; dos bons, obviamente. Porque não sou santa e às vezes tenho maus, muito maus pensamentos. Mas, do fundo do meu coração, não quero iludir ninguém, enganar, falsear situações. Continuo respeitando as vagas reservadas aos PNE's, continuo não furando fila, continuo dizendo bom dia no elevador, continuo cedendo espaço aos mais velhos e de saúde mais frágil que a minha, continuo respeitando as vagas preferenciais. Não porque eu seja boa pessoa, mas porque simplesmente quero para mim o mesmo: respeito. Honestidade. Sinceridade. Não quero que brinquem com o meu coração (ele é de papel e não de aço) e sei que o coração alheio é semelhante ao meu. Alguns mais endurecidos, outros mais amanteigados... mas todos muito parecidos. Todos carregam suas histórias, suas marcas de alegria ou dor. E eu não quero colecionar dores, tristezas ou amarguras, assim como não quero causar isto em outras pessoas. Pelo contrário, quero ser ombro quando meus queridos e queridas precisarem de um para chorar, quero ser abraço quando precisarem de um calorzinho para fugir da dureza da vida, quero ser ouvido quando lamentar for a forma de expelir a agonia do peito. Quero que meus queridos e queridas saibam que poderão, sempre, quaisquer que sejam as voltas da vida ou quantas sejam, ou quanto tempo passe, que eu estou aqui. E gostaria de poder contar com eles também, quando eu precisar.
Não sei quanto aos outros, mas esta modernidade de ser blasé, de não se importar, de não ser sincero não me pegou. E nem vai. Porque eu me importo. Eu sinto. Eu digo que sinto. E choro. No meu travesseiro, que nem sou doida de chorar em outro lugar (no chuveiro pode). Acho que meu coração, aquele de papel, não passou dos vinte e cinco anos de idade. E continuo sonhando. Ainda quero viajar o mundo com uma mochila - desejo que trago há mais de vinte anos, qualquer hora dará certo. Ainda quero ajudar pessoas e bichos - um dia poderei fazer como em meus sonhos. Qualquer hora tranco tudo aqui e vou embora. Passárgada. Paris. Pindamonhangaba. 
A rotina cansa. Mas é ela que, por outro lado, proporciona o extraordinário. E assim, olhando para todos os lados que todas as coisas possuem, eu vejo o bom quando o mau se apresenta, mas também vejo o mau quando é bom que surge. Poliana veria apenas o bom? Não sei, mas o que me estraga é que eu me apego ao bom... acredito. Vejo naquele bom a possibilidade do extraordinário, do fora da rotina, do céu e das estrelas, do sol e do azul. E daí olho mais atentamente para os lados e vejo que a maioria das pessoas nem liga. Que as pessoas estão interessadas na aparência e não na essência. 
Mas quer saber? Tanto faz também. Tanto faz se estou fora do tempo e se acredito em coisas que parecem não existir. Sei que existem. E que um dia chegarão a mim.


*Ana Borzan, 28/06/2014*

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Outono

Vai assim, sem querer e sem saber, minuciosamente,
                                     destruindo o meu não querer.
Temporariamente, eu lhe odeio.

Quem você pensa ser, para chacoalhar a minha paz?
Do reino de Hades surge como vulcão
E queima sem piedade o meu sossego

No meio da noite, por vezes, no começo do dia
                     De onde veio, retorne, doce vilão
Não me interessa se anjo ou demônio.


(Permanentemente, eu te amo
Sinto como uma luz no coração
Arrebatada como adolescente
Te espero no portão.)


*Ana Borzan*

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Demônio Colorido

Demônio Colorido

Seus olhos ao invés de verdes
Deveriam ser vermelhos incandescentes
Na mão ao invés de uma rosa
Você deveria ter um tridente
Sua voz é tão suave
Quando deveria ser mais arrogante
Vadiando na minha cabeça
Não me deixa um só instante
Mas eu vou lhe guardar
Com a força de uma camisa
Me despir do pavor
Lhe chamar de amiga
24 horas por dia
Tentando o meu juizo
Foi unanimemente eleita
Meu Demônio Colorido

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Serei como o mar

É preciso aproveitar todo este sentimento desatado
Para algo esta presença me serve
Confusão que tira meu conforto
Inquietude que não passa
E continuo em meu lugar
Quieta, a observar e sentir
Ah, presença... se lhe tomo presente
Se transcenderes meu silêncio
Serei como o mar...

*Ana Borzan*

terça-feira, 10 de junho de 2014

Menina

Ah, menina...
O tempo passa e tua alma não envelhece
Como pode manter este coração assim
Sobressaltado e esperançoso?
Não lhe basta todas as dores de até hoje?
Ah, menina, menina...
Não espere amor de quem deseja vitrine
Não espere paixão de quem deseja ilusão!
Menina...posso lhe dar um conselho?
Talvez seja melhor guardar o coração em um baú de madeira
Deixe o amor para os poetas e para os pássaros
De sua parte, apenas aprecie o azul do céu e as ondas do mar.


*Ana Borzan*

domingo, 1 de junho de 2014

O Homem


Quero encontrar você
Ver todo o seu desenho
Todas as curvas, todas as marcas
Observar o formato do seu nariz
Ver o seu sorriso e o seu olhar, no meu.
Quero contar quantos cílios você tem
E odiar porque são mais bonitos que os meus
Quero imprimir seu rosto em minha memória
A barba e o cabelo em desalinho
Quero, assim perto, comparar-lhe a mim
Olhar suas mãos, o formato de seus dedos
A cor de suas unhas e até como elas nascem
Quero ver seu corpo por dentro de suas roupas
Fechar os olhos e, imaginariamente, sentir cada parte, cada músculo
Quero ouvir as batidas do seu coração
E acreditar que estão mais rápidas por mim
Quero aproximar-me de você para sentir seu cheiro
E quero sentir que ele é como em meus sonhos
E, ao dormir, sentirei-o novamente em meu afeto.
Quero ouvir sua voz
Não por muito tempo
Apenas o suficiente para gravá-la.
Quero cercar-me de você
Para que sua energia contacte a minha
E deixe uma marca que somente a alma sinta.
Quero roubar-lhe todas estas impressões
Mas não quero tocá-lo
E não quero ser tocada por você...
Quero apenas que permaneça em mim
Como um sonho possível
Assim, você estará comigo para sempre,
E para sempre, perfeito.
Não quero que o desejo que sinto hoje
Seja destruído pela realidade de todos os dias
Não quero que a oportunidade de ferir
Mesmo involuntariamente
Concretize-se, um dia.
Somente quero você assim, lindo como é
Hoje o mais gentil de todos
Como nenhum outro jamais será, o Homem!
É assim que eu quero você:
Distante do meu coração.


Ana Borzan

domingo, 25 de maio de 2014

Silêncio

Um milhão de palavras não descreveriam.
Talvez o luar, talvez o azul de julho.
A distância das estrelas é hoje a minha distância
Esqueci de amarrar-me às rochas...
De lá verei tudo apequenar-se
Somente eu saberei o que mudou
Funde-se e confunde-se
E o que não for rocha, se desfará.

Ana Borzan

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Jogo

A lua míngua e com ela a esperança.
A esperança míngua e com ela a lua. 
A esperança lua e com ela à míngua.
Míngua com ela a lua e a esperança.
Minguei. Mas elas antes.

Ana Borzan


quinta-feira, 6 de março de 2014

Profecia


Não sei por quais caminhos você segue
Mas são tão diversos dos meus
Que nem mesmo a minha prece lhe alcança.
E eu pergunto aos deuses o que será
O que irá, depois da dor e depois do riso
Se restará de mim alguma fé ou somente feiura
Pois do vale das sombras minha sorte já não escapa
Nem as pedras da antiga estrada purgaram os erros cometidos
E o presente ri dos acertos: quais acertos?
Meus olhos já não encontram o azul
E deles somente a chuva cai
Para derramar em minh'alma a inverdade e o inverno
Para que se cumpra a profecia.


Ana Borzan

domingo, 2 de março de 2014

Pátria Minha


A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”

Vinícius de Moraes

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Arevida!


A vida é tão breve, um sopro
      Um vento, tão leve
            Rápida, quase um suspiro.
A vida é uma canção.

Um piscar de olhos
      Uma oração
           É um amor, é um filho.
É um ano em cada estação.

A vida cabe em um abraço
     Na rapidez de um passo
          Na singeleza de um laço
Num olhar de separação.

A vida, tão leve, tão breve
     É areia entre os dedos
          Num momento se esvai.
É um grito na escuridão.


Ana Borzan


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Aquela Ali




Aquela ali sou eu
A que deseja viver nas estrelas
Nas estradas e nas entrelinhas
Nas linhas e nas cordas
E no balanço de corda
Que sobe e vai e volta
E torna a subir.
A que deseja as estrelas e a luz
Aquela ali que está em busca
De algo de si
Que não está do lado de dentro
Também sou eu.
E sou aquela que deseja um mundo
Não vivido e que seja partilhado.
Sou esta que está aqui
E que você não vê
Mesmo quando olha para mim
Sou esta que você não sente
Mesmo quando toca em mim
E quando seus olhos olham-me
Nem sonha com o meu universo
De sonhos.

Ana Borzan