quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Autopsicografia
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso dos meus anos;
Dei causa a que a fortuna castigasse
As minhas mais fundadas esperanças.
De amor não vi se não breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!
Transforma-se o Amador na Cousa Amada
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está ligada.
Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma,
Está no pensamento como idéia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples, busca a forma.
sábado, 15 de agosto de 2009
Mar Português
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Soneto da Separação
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Alma Minha Gentil
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
domingo, 17 de maio de 2009
Os Teus Pés
Contemplo os teus pés.
Teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,
Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso
Sobre eles se ergue.
Tua cintura e teus seios,
A duplicada purpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram voo,
A larga boca de fruta,
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha.
Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Time To Say Goodbye
Dizer "adeus" sempre comporta uma forte carga emocional. Seja adeus a um lugar, a um momento específico ou a uma pessoa. Seja porque nós vamos, porque a pessoa vai ou porque a vida determinou que era hora. Para mim, é sempre difícil e doloroso; para mim, a música abaixo consegue transformar sentimento em som e retrata esses momentos com perfeição.
http://www.youtube.com/watch?v=PcXRWtY1UqM
terça-feira, 14 de abril de 2009
Tu Não Estás...
No pensamento meu, amor, tu vives nua
- Toda nua pudica e bela, nos meus braços.
Manuel Bandeira
Murmúrio
[foto: http://br.olhares.com/liga_foto2504508.html]que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!
Cecília Meireles
terça-feira, 7 de abril de 2009
sábado, 4 de abril de 2009
Saber Amar
[foto: http://br.olhares.com/the_colour_of_passion_foto2402350.html] A crueldade de que se é capaz
Deixar pra trás os corações partidos
Contra as armas do ciúme tão mortais
A submissão às vezes é um abrigo
Saber amar
É saber deixar alguém te amar
Há quem não veja a onda onde ela está
E nada contra o rio
Todas as formas de se controlar alguém
Só trazem um amor vazio
Saber amar
É saber deixar alguém te amar
O amor te escapa entre os dedos
E o tempo escorre pelas mãos
O sol já vai se pôr no mar
Paralamas do Sucesso
Pulso
Apenas um ritmo: o do espanto, o da dor.
A busca pelas estrelas continua...
Um dia, um dia.
Mas, e o frio? Este permanecerá.
Lamento
Hoje não sei se há alguma frase, canção ou poesia que seja capaz de refletir como me sinto. E eu pergunto a Ele porque, quando a vida deu oportunidade para a morte, mais de uma inclusive, porque ele me manteve aqui ao invés de tornar-me anjo. Se assim houvesse sido, hoje teria asas nas costas e não correntes nos pés.
Por anos viu-me viver sem vida, por anos ouviu meus questionamentos e não trouxe-me respostas. Hoje eu pergunto novamente, por que? O que queres é ver-me novamente derrotada? Eu não sei se eu peço de forma inconsciente, mas Ele insiste em lembrar-me destes fatos. Insiste.
Mas eu não quero, Senhor. Eu não quero passar por isso novamente, eu não quero cair nesse precipício sem fim e também não quero acreditar que as coisas possam ser diferentes. E sabe porque eu não quero acreditar? Sabe. Sabe que eu não acredito em nada, que eu não acredito nas pessoas e que não acredito nem em mim. E daí fica aí, fazendo isso. Quando eu estou bem quietinha no meu canto, Você vem e apronta de novo. Pra quê, eu Te pergunto??? Gosta de ver-me chateada? Triste? Revoltada? Com vontade de quebrar a cabeça na parede?
Por favor, não me empurre nesse precipício novamente e se eu tentar pular, me segure. E deixe-me viver de acordo com as minhas crenças, ou melhor, com as minhas não crenças. Porque as coisas não irão mudar, porque as pessoas são o que Você conhece desde que o mundo é mundo e Você, melhor que ninguém sabe que elas são assim. Senhor, acredite em mim, estou apenas me protegendo de mais dor. Porque eu não posso mais, eu não suportaria passar de novo por as coisas que já passei. Eu não quero saber se do outro lado é bom, porque eu já sei o que há de ruim e não suporto.. juro.. não consigo. Por favor... ouça-me.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Súplica

Ana Borzan
* * *
Sem nenhuma lucidez, acordar e escrever. Apenas isso, pedir a ti que não me esqueça. Uma súplica insana, silenciosa e indireta.
* * *
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Oração do Guerreiro da Selva
[foto: http://foradefoco.blogger.com.br/]Senhor,
Tu que ordenaste ao guerreiro da selva:
"Sobrepujai todos os vossos oponentes!"
Dai-nos hoje da floresta:
A sobriedade para persistir,
A paciência para emboscar,
A perseverança para sobreviver,
A astúcia para dissimular,
A fé para resistir e vencer,
E dai-nos também, Senhor,
A esperança e a certeza do retorno.
Mas, se defendendo esta brasileira Amazônia,
Tivermos que perecer, ó Deus!
Que o façamos com Dignidade e mereçamos a Vitória.
SELVA!!!
* * *
Aos bravos Guerreiros dos BIS que defendem nossa Pátria.
* * *
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Irreversível

Vi nascer novamente em minha pena,
Ímpio amor que flutua imprevisível!
Sempre

Da tua boca, o beijo, a língua a deriva.
Sempre haverá um ninho doce, a espera
De nós dois, ímpetos consumados ao calor.
Em mim, o alado corcel a mercê de uma fera
Que espreita, ao faro do néctar, que lhe dera.
Descrever-te, seria, assim, o vislumbre do furor.
Em ti, a felina, entretanto ao cio, doce pantera.
Carlos Orlando
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Acordar
Acordar da Rua do Ouro,
Acordar do Rocio, às portas dos cafés,
Acordar
E no meio de tudo, a gare, que nunca dorme,
Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.
Toda manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,
Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.
À hora que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se
Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terrras são a mesma,
E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.
Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,
Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,
Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom,
São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela leve senhora dos cumes dos montes,
Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja
A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas...
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara...
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã,
Tudo isso tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.
Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.
Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...
Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...
Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem os console
Verdadeiramente,
Exceto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Dá me rosas, rosas,
E lírios também...
Minha dor é velha
Como um frasco de essência cheio de pó.
Minha dor é inútil
Como uma gaiola numa terra onde não há aves,
E minha dor é silenciosa e triste
Como a parte da praia onde o mar não chega.
Chego às janelas
Dos palácios arruinados
E cismo de dentro para fora
Para me consolar do presente.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...
Mas por mais rosas e lírios que me dês,
Eu nunca acharei que a vida é bastante.
Falatar-me-á sempre qualquer coisas,
Sobrar-me-á sempre de que desejar,
Como um palco deserto.
Por isso, não te importes com o que eu penso,
E muito embora o que eu te peça
Te pareça que não quer dizer nada,
Minha pobre criança tísica,
Dá-me das tuas rosas e dos teu lírios,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...
Álvaro de Campos
Eterna Dor
Só eu, meu doce amor, só eu me lembro,
Daquela escura noite de setembro
Em que da cova te deixei no fundo.
Desde esse dia um látego iracundo
Açoitando-me está, membro por membro.
Por isso que de ti não me deslembro,
Nem com outra te meço ou te confundo.
Quando, entre os brancos mausoléus, perdido,
Vou chorar minha acerba desventura,
Eu tenho a sensação de haver morrido!
E até, meu doce amor, se me afigura,
Ao beijar o teu túmulo esquecido,
Que beijo a minha própria sepultura!
Artur Azevedo
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Não Te Quero...
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.
Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.
Pablo Neruda
* * *
"[...] e morrerei de amor porque te quero, porque te quero amor, a sangue e fogo." Essa frase resume o tamanho de um amor-paixão, que nos consome por todos os lados e poros; "morrerei de amor porque te quero a sangue e fogo". O desejo de estar com alguém, de ter alguém, o desejo que nos impele nessa surda busca por este ser. Nada vale nesta jornada se o amor não for parte de nós.
* * *
domingo, 25 de janeiro de 2009
Confissão
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
Mário Quintana
* * *
Porque a paz que estampa meu rosto não é a mesma que cala meu coração.
* * *
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
I Don't Want To Talk About It

and the stars in the sky don't mean nothing to you, they're a mirror.
I don't want to talk about it, how you`ve broken my heart.
If I stay here, won't you listen to my heart, ohh my heart?
If I stand all alone, will the shadow hide the color of my heart;
blue for the tears, black for the night's fears.
The stars in the sky don't mean nothing to you, they're just a mirror.
I don't want to talk about it, how you broke my heart.
If I stay here just a little bit longer,
if I stay here, won't you listen to my heart, ohh my heart?
my heart, ohh my heart, this old heart.
I don't want to talk about it, how you´ve broken my heart
If I stay here just a little bit longer,
if I stay here, won't you listen to my heart, ohh my heart?
My heart, ohh my heart.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Aceitação

[foto: http://olhares.aeiou.pt/foto2327264.html]
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.
É mais fácil, também, debruçar os olhos nos oceanos
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mundo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança.
Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.
Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.
Cecília Meireles
* * *
Porque, às vezes, é necessário compreender e aceitar que somos um mundo de esperança, mesmo quando não temos a quem esperar.
* * *
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
É Assim Que Te Quero...

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nossos lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.
Pablo Neruda
* * *
Com carinho, para quem apresentou-me à esta poesia.
* * *
domingo, 4 de janeiro de 2009
Um Beijo
Ana Cristina César
