quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Ausência






Eu deixarei que morra em mim
o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar
senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa
como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto
existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter
porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho
desta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
como nódoa do passado.
Eu deixarei...
tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos
e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face
na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram
os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência
do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros
nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém
porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar,
do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente,
a tua voz ausente,
a tua voz serenizada.


Vinícius de Moraes

domingo, 21 de setembro de 2008

Gosto Quando..



Gosto quando te calas porque estás como ausente
e me escutas de longe; minha voz não te toca.
É como se tivessem esses teus olhos voado,
como se houvesse um beijo lacrado a tua boca.

Como as coisas estão repletas de minha alma,
repleta de minha alma, das coisas te irradias.
Borboleta de sonho, és igual à minha alma,
e te assemelhas à palavra melancolia.

Gosto quando te calas e estás como distante.
Como se te queixasses, borboleta em arrulho.
E me escutas de longe. Minha voz não te alcança.
Deixa-me que me cale com teu silêncio puro.

Deixa-me que te fale também com teu silêncio
claro qual uma lâmpada, simples como um anel.
Tu és igual a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão remoto e singelo.

Gosto quando te calas porque estás como ausente.
Distante e triste como se tivesses morrido.
Uma palavra então e um sorriso bastam.
E estou alegre, alegre por não ter sido isso.


Pablo Neruda em 20 Poemas de Amor e uma canção desesperada

domingo, 24 de agosto de 2008

Anjo, dias sem você não tem graça. Passo o dia a vigiar se você virá, em vão. Eu sentia que isso poderia não dar certo e apenas remexer no passado, mas arrisquei. E agora, anjo? O que faço com tua ausência, o que faço com essa presença em meu coração, o que faço com essa espera infinita?

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Revelação


Hoje, amor, o tempo quase parou

Hoje o dia ficou suspenso com a sua lembrança em meu corpo

Hoje eu não consegui definir o que sinto por você

Só sei que hoje senti saudades

Do seu corpo, do seu beijo, do seu olhar

Hoje, amor, ouvi músicas

As mesmas que ouvimos ontem

As mesmas que nos embalaram no frenesi da tarde

Amor, não sei o que sinto

Só sei que te amo.



terça-feira, 12 de agosto de 2008

O tempo, oras...


o tempo passou, amor...

passou, mas passou apenas o tempo...

o tempo dos outros...

o tempo do tempo e do espaço

o tempo dos dias, dos minutos, dos meses...

passaram-se anos, passou o tempo

mas não nosso tempo

nosso tempo que nunca chegou, que nunca foi

que nunca aconteceu

mas o tempo que sempre o é

o tempo que sempre está

o nosso tempo... que aguarda por nós

o nosso tempo... que por nós deseja

o nosso tempo... que por nós é desejado

amor...amigo...sempre isso e mais que isso

com tempo, sem tempo ou no tempo

não sei, será essa a hora do agora?

será esse tempo o nosso?

será que virá um novo tempo após esse momento?

não sei... apenas feche os olhos




De Ana Borzan para... o tempo...

sábado, 12 de julho de 2008

O Amor Não Nos Explica...


O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta
que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.
Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar da vida um vago indício,
a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.
Mas na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário
já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 18 de maio de 2008

Ai! Se sêsse!

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?
...Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

Zé da Luz

Sem Você Não Viverei

Ou, ou, ou, ei, ei, ei
Sem você não viverei
Volte logo não suporto
Essa distancia de você
Ou, ou, ou, ei, ei, ei
Sem você não eu viverei
Todo amor desse mundo
Pra você eu entreguei
Por isso peço que eu escrevas
Uma carta por favor
Meu coração está pedindo
Volte logo meu amor
Ou, ou, ou, ei, ei, ei
Sem você não eu viverei
Todo amor desse mundo
Pra você eu entreguei
Por isso peço que escrevas
Uma carta por favor
Meu coração está pedindo
Volte logo meu amor
Ou, ou, ou, ei, ei, ei
Sem você não eu viverei
Todo amor desse mundo
Pra você eu entreguei
Só pra você eu entreguei
Só pra você eu entreguei
Meu amor, volte pra mim
Só você eu amarei

Ovelha

sábado, 22 de março de 2008

Por que mentias?


Por que mentias, leviana e bela?
Se minha face pálida sentias
Queimada pela febre, e minha vida
Tu vias desmaiar, por que mentias?
Acordei da ilusão, a sós morrendo
Sinto na mocidade as agonias.
Por tua causa desespero e morro...
Leviana sem dó, por que mentias?
Sabe Deus se te amei! Sabem as noites
Essa dor que alentei, que tu nutrias!
Sabe esse pobre coração que treme
Que a esperança perdeu por que mentias!
Vê minha palidez- a febre lenta
Esse fogo das pálpebras sombrias...
Pousa a mão no meu peito!
Eu morro! Eu morro!
Leviana sem dó, por que mentias?



Álvares de Azevedo

domingo, 27 de janeiro de 2008

Divagando

O trânsito lá fora está fervendo. Aqui, pareço estar em outro país: música francesa às 17h, pássaros no bosque diante da minha mesa, uma brisa que já anuncia a frialdade da noite.
Aqui, muito tranqüilo, mas nem é necessário apurar os ouvidos para perceber o caos automobilístico que vai tomando conta da cidade. Aguardo pacientemente meu café enquanto meu coração impaciente já não te aguarda. O vento carrega a paina deitada ao chão e às vezes penso que ele também carrega nossas conversas inacabadas, nossa história mal começada e sem ponto definitivo. Minha boca permanece ressequida apesar da água que constantemente sorvo. Começo a sentir frio e a arrepender-me de ter deixado o casaco no carro. Torço para o café estar bem quente.
Você ficou perdido em mim, em algum lugar do passado...

10/agosto/2007
Aninha.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Palavras Ao Vento


Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina, paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar
Que o nosso amor pra sempre viva, minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será
Palavras, apenas
Palavras pequenas
Palavras

Ando por aí querendo te encontrar
Em cada esquina, paro em cada olhar
Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar
Que o nosso amor pra sempre viva, minha dádiva
Quero poder jurar que essa paixão jamais será
Palavras, apenas
Palavras pequenas
Palavras, momento
Palavras palavras
Palavras palavras
Palavras ao vento



Cássia Eller


Eu estava no carro e ouvi essa música agora a tarde. Ao mesmo tempo que me encheu o coração de um amor que não sei de onde vem ou para onde foi, encheu-me também de uma dor e uma tristeza inexplicável. "Ando por aí querendo te encontrar..."