quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Um Certo Alguém



Quis evitar teus olhos
Mas não pude reagir
Fico à vontade então
Acho que é bobagem
A mania de fingir
Negando a intenção


Quando um certo alguém
Cruzou o teu caminho
E te mudou a direção

Chego a ficar sem jeito
Mas não deixo de seguir
A tua aparição

Quando um certo alguém
Desperta o sentimento
É melhor não resistir
E se entregar

Me dê a mão
Vem ser a minha estrela

Complicação
Tão fácil de entender
Vamos dançar,
Luzir a madrugada
Inspiração
Pra tudo que eu viver

Quando um certo alguém
Cruzou o teu caminho
É melhor não resistir
E se entregar

Me dê a mão
Vem ser a minha estrela

Complicação
Tão fácil de entender
Vamos dançar,
Luzir a madrugada
Inspiração
Pra tudo que eu viver
Que eu viver

Quando um certo alguém
Desperta o sentimento
É melhor não resistir
E se entregar


quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Como imperfeito ator...




Como imperfeito ator que em meio à cena

O seu papel na indecisão recita,

Ou como o ser violento em fúria plena

A que o excesso de forças debilita;

Também eu, sem confiança em mim, me esqueço

No amor de os ritos próprios recitar,

E na força com que amo me enfraqueço

Rendido ao peso de poder amar.

Oh! sejam pois meus livros a eloqüência,

Áugures mudos do expressivo peito,

Que amor implore, peçam recompensa,

Mais do que a voz que muito mais tem feito.

Saibas ler o que o mudo amor escreve,

Que o fino amor ouvir com os olhos deve.



William Shakespeare

Luxúria




Dobro os joelhos

Quando você me pega, me amassa, me quebra,

Me usa demais

Perco as rédeas

Quando você demora, devora, implora sempre por mais



Eu sou navalha cortando na carne

Eu sou a boca que a língua invade

Sou o desejo maldito e bendito, profano e covarde



Desfaça assim de mim

Que eu gosto e desgosto, me dobro,

Nem lhe cobro rapaz

Ordene e não peça

Muito me interessa a sua potência, seu calibre e seu gás



Sou o encaixe, o lacre violado

E tantas pernas por todos os lados

Eu sou o preço cobrado e bem pago

Eu sou um pecado capital



Eu quero é derrapar nas curvas do seu corpo

Surpreender seus movimentos

Virar o jogo

Quero beber o que dele escorre pela pele

E nunca mais esfriar minha febre



segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Oração de Joelhos



Bendita seja a mãe que te gerou!

Bendito o leite que te fez crescer!

Bendito o berço aonde te embalou

A tua ama pra te adormecer!


Bendito seja o brilho do luar

Da noite em que nasceste tão suave,

Que deu essa candura ao teu olhar

E à tua voz esse gorjeio d’ave!


Benditos sejam todos que te amarem!

Os que em volta de ti ajoelharem

Numa grande paixão, fervente, louca!


E se mais, que eu, um dia te quiser

Alguém, bendita seja essa mulher!

Bendito seja o beijo dessa boca!



Florbela Espanca

domingo, 2 de dezembro de 2007

O Poetinha



Eu admiro os poetas, a capacidade que eles têm para colocar no papel algo que está dentro de si, em forma de sentimento. Sentimento é algo quase inexplicável. Quase, porque os poetas bem que conseguem explicar docemente o que se vai por dentro.


A primeira vez que ouvi "Minha Namorada" (sim, ouvi alguém recitando) eu apaixonei pelo poema. Depois fiquei sabendo que era uma música e, sinceramente, musicado não é tão belo quanto recitado. Comecei a buscar na net a letra completa do poema, mas acabei encontrando diversas versões, sempre com alguma pequena diferença em um ou outro verso. Não sei qual é o original, mas copiei um e guardei. Durante essas buscas encontrei o que seria uma carta do Vinícius para essa namorada: a menina com uma flor. Nada sei sobre a vida do poetinha, mas bem que convence, e além de convencer, é uma linda carta.


Então, logo abaixo estão a carta e em seguida o poema. Espero que os românticos e apaixonados corações visitantes desse blog curtam tanto quanto eu esse poema especial.

Para uma Menina com uma Flor


Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.


E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.


E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.


E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.


E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.


E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.


E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.


Vinicius de Moraes

Minha Namorada



Se você quer ser minha namorada

Ai, que linda namorada

Você poderia ser

Se quiser ser somente minha exatamente

Essa poesia

Essa coisa toda minha

Que ninguém mais pode ser

Você tem que me fazer um juramento

De só ter um pensamento

Ser só minha até morrer

E também de não perder

Esse jeitinho de falar

Devagarinho

Essas histórias de você

E de repente me fazer muito carinho

E chorar bem de mancinho

Sem ninguém saber porquê

E se mais do que minha namorada

Você quer ser minha amada

Minha amada mais amada

Pra valer, aquela amada

Pelo amor predestinada

Sem o qual a vida é nada

Sem o qual se quer morrer

Você tem que vir comigo

Em meu caminho

E talvez o meu caminho

Seja triste pra você

Os seus olhos tem que ser

Só dos meus olhos

E os seus braços o meu ninho

No silêncio de depois

E você tem que ser a estrela derradeira

Minha amiga e companheira

No infinito de nós dois.


Carlos Lyra / Vinícius de Moraes