domingo, 6 de julho de 2014

Eu Sei

Eu sei que certas coisas andam fora de moda hoje em dia. Nossos "tempos modernos" estão bem piores do que poderíamos ter previsto vinte anos atrás. Porque sempre pensamos que a "modernidade" chegaria ao ambiente de trabalho, elevaria o estresse, trabalharíamos mais horas que antes, os chefes seriam mais carrascos e aquele filme do Chaplin seria o verdadeiro retrato do período que vivemos, e tudo seria um caos, neste aspecto.
Mas estão muito piores, no aspecto pessoal. No geral, as pessoas perderam a ética, a sinceridade, a confiabilidade. A palavra empenhada pode ser desdita e a assinatura no contrato pode ser contestada, não a assinatura em si, posto que é desenhada à caneta, mas todo o envoltório do conteúdo e momento de assinatura do dito.
O que escrevemos, já não lemos. Talvez porque hoje, para apagar o escrito, basta dar um "del", "excluir a publicação" ou "desfazer a amizade / apagar o contato". Antes, para escrever, empunhávamos papel e caneta e, às vezes, papel e máquina de datilografia. Não havia error-ex. Não havia deletar, excluir, desfazer. Escrevíamos, envelopávamos e postávamos nos Correios. A palavra escrita não tinha volta, a não ser diante de um grande embaraço ou vergonha pessoal ao desdizer tudo aquilo. O mesmo valia para a palavra dita, dizer algo tinha valor. Acreditávamos naquilo que ouvíamos e naquilo que falávamos.
Eu não sei quanto aos outros, mas eu, Ana Borzan, ainda continuo acreditando no que dizem a mim, seja escrito ou dito, seja no papel à caneta ou na tela digital. Importa-me ainda ser uma pessoa sincera e, desta forma, encontrar a recíproca sinceridade. Tenho dado com os "burros n'água", para ser honesta. Não é bolinho. Mas ainda assim sei que não vou perder este desejo de encontrar a reciprocidade dos meus sentimentos; dos bons, obviamente. Porque não sou santa e às vezes tenho maus, muito maus pensamentos. Mas, do fundo do meu coração, não quero iludir ninguém, enganar, falsear situações. Continuo respeitando as vagas reservadas aos PNE's, continuo não furando fila, continuo dizendo bom dia no elevador, continuo cedendo espaço aos mais velhos e de saúde mais frágil que a minha, continuo respeitando as vagas preferenciais. Não porque eu seja boa pessoa, mas porque simplesmente quero para mim o mesmo: respeito. Honestidade. Sinceridade. Não quero que brinquem com o meu coração (ele é de papel e não de aço) e sei que o coração alheio é semelhante ao meu. Alguns mais endurecidos, outros mais amanteigados... mas todos muito parecidos. Todos carregam suas histórias, suas marcas de alegria ou dor. E eu não quero colecionar dores, tristezas ou amarguras, assim como não quero causar isto em outras pessoas. Pelo contrário, quero ser ombro quando meus queridos e queridas precisarem de um para chorar, quero ser abraço quando precisarem de um calorzinho para fugir da dureza da vida, quero ser ouvido quando lamentar for a forma de expelir a agonia do peito. Quero que meus queridos e queridas saibam que poderão, sempre, quaisquer que sejam as voltas da vida ou quantas sejam, ou quanto tempo passe, que eu estou aqui. E gostaria de poder contar com eles também, quando eu precisar.
Não sei quanto aos outros, mas esta modernidade de ser blasé, de não se importar, de não ser sincero não me pegou. E nem vai. Porque eu me importo. Eu sinto. Eu digo que sinto. E choro. No meu travesseiro, que nem sou doida de chorar em outro lugar (no chuveiro pode). Acho que meu coração, aquele de papel, não passou dos vinte e cinco anos de idade. E continuo sonhando. Ainda quero viajar o mundo com uma mochila - desejo que trago há mais de vinte anos, qualquer hora dará certo. Ainda quero ajudar pessoas e bichos - um dia poderei fazer como em meus sonhos. Qualquer hora tranco tudo aqui e vou embora. Passárgada. Paris. Pindamonhangaba. 
A rotina cansa. Mas é ela que, por outro lado, proporciona o extraordinário. E assim, olhando para todos os lados que todas as coisas possuem, eu vejo o bom quando o mau se apresenta, mas também vejo o mau quando é bom que surge. Poliana veria apenas o bom? Não sei, mas o que me estraga é que eu me apego ao bom... acredito. Vejo naquele bom a possibilidade do extraordinário, do fora da rotina, do céu e das estrelas, do sol e do azul. E daí olho mais atentamente para os lados e vejo que a maioria das pessoas nem liga. Que as pessoas estão interessadas na aparência e não na essência. 
Mas quer saber? Tanto faz também. Tanto faz se estou fora do tempo e se acredito em coisas que parecem não existir. Sei que existem. E que um dia chegarão a mim.


*Ana Borzan, 28/06/2014*

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