
Era uma vez você, um mocinho, o Alfa, e ela, uma mocinha, a Beta. Você é o tipo de cara mente aberta, come de tudo, cada dia um prato diferente, um restaurante diferente, adora experimentar pratos novos e entre tudo o que já comeu, ama de paixão macarrão com molho branco. Beta não. Beta é uma guria normalzinha, acostumada com a comidinha caseira, e tem uma preferência absurda por jiló, que você nem aprecia, e ela, por sua vez, não gosta de macarrão com molho branco. Conheceram-se, gostaram-se e começaram a namorar. Você pensa que precisa casar, ter filhos, a idade vai chegando e o homem tem que passar a comer em casa. Ela acha que tem que casar, ter filhos, idade chegando, melhor casar logo, cozinhar para o marido e tal. Numa dessas conversas de namorados, você descobre que ela não gosta do seu prato predileto, e você, como um bom namorado, não revela isso a ela. Torna-se um segredo seu, afinal, para que discutir sabores, ela gosta de jiló e você de macarrão com molho branco. Durante o namoro você continua almoçando fora, comendo seu macarrãozinho, na boa, sem estresse. Quando estão juntos, você come jiló e faz cara boa. Mas eis que chega o grande passo da vida, aquele que você enlaça a guria pela cintura e então vocês precisam dançar no mesmo compasso e ritmo. Você decide por isso, ela decide por isso, e vocês fazem. Porém ela não sabe do seu macarrão, ela acha que você também não gosta de macarrão, que nem come mais essa porcaria. Com o casamento, você passa a almoçar e jantar todos os dias em casa, com ela. Então você pensa: bom, nem vou mais comer macarrão, mas também, ta na hora mesmo de parar com isso, estou até enjoado de tanto macarrão com molho branco. E segue isso. você programa e segue. Algum tempo depois te dá uma vontadezinha de comer macarrão com molho branco, aí você se distrai com assado de jiló e a vontade passa. Mais algum tempo e começa a dar uma tremenda vontade de comer o tal macarrão. Você só pensa nele, com muito molho branco, e sente até o gosto em sua boca. Hmmm, que delícia. Os dias vão passando e a vontade vai aumentando, até que você tem a brilhante idéia de substituir o seu prato predileto por pão, que também é massa, com queijo, que também é derivado do leite. E você come pão com queijo aos quilos. Farta-se. Acha simplesmente delicioso e até pensa “hm, que macarrão com molho branco o quê, o negócio é pão com queijo, a sétima maravilha do mundo, como consegui viver até hoje sem isso..” O teu cérebro sendo enganado, o teu estômago também e a essas alturas do campeonato, até o jiló fica gostoso. Então está tudo bem nos almoços e jantares familiares. Porém um dia você cansa do pão com queijo e sente aquela necessidade urgente de comer macarrão. O desejo reprimido vem com toda a força e te enlouquece. Você anda nervoso pela casa, fecha a cara, fica pensativo, olha pro jiló e sonha com o macarrão com molho branco. Você começa a ficar com raiva da Bela porque ela só sabe fazer jiló. De tudo quanto é jeito, mas continua sendo jiló. E agora, ele está mais amargo que nunca. Que estranho né? O que poderá estar acontecendo? E você, continua sonhando com o macarrão, a tua lembrança do molho está mais vívida, sim, você lembra que tem champignon no molho, que ele é macio; que tem cebola picadinha e ela é crocantezinha; que o molho é feito com creme de leite, hmmmm, creme de leite, e, olha, tem mais uma coisinha que você está recordando, nossa, nem era tão aparente assim, mas agora, a noz moscada, aquela pitadinha, você consegue distinguir seu sabor na lembrança do prato desejado. O espagueti utilizado, tão fino, tão gostoso, com aquele molho perfeito em cima, nossa, de dar água na boca. Então você começa a arquitetar planos para comer o tal macarrão, reflete um pouco e se vê num beco sem saída, pois almoça e janta todos os dias segunda-terça-quarta-quinta-sexta-sábado-domingo com a esposinha, de janeiro a dezembro, de um a trinta e um. Resta-lhe então o café da manhã. Sim, por que não macarrão com molho branco no café da manhã? Há um restaurante perto do seu trabalho, eles hão de servir-lhe macarrão às oito da manhã, mesmo que você tenha que pagar mais caro, e se eles não puderem, existem muitos outros restaurantes na cidade e então ta decidido. Dia seguinte, você começa a matar seu desejo, você come avidamente o seu delicioso prato. Você sente-se muito bem, sente-se feliz demais e quer compartilhar sua felicidade com quem você ama. Mas você lembra que ela odeia esse macarrão, que ela não sabe que você adora, que você comeu escondido e teme a reação dela. Você não pode dividir seu prazer gastronômico com aquela pessoa com que você divide até a privada. Mas a felicidade é algo que não tem como não ser dividida com outras pessoas, a felicidade é um sentimento tão vasto que sua existência no seu rosto já é um convite à partilha. Você pensa um pouco e decide que irá falar com seu melhor amigo, aquele amigo que não irá te recriminar por isso, irá entender e vocês irão conversar sobre o quanto é gostoso macarrão com molho branco. Esse seu amigo adora a conversa e logo vai falando para você que abriu um restaurante novo que faz esse prato divinamente. Vocês praticamente trocam receitinhas sobre os molhos e você fica sabendo que gengibre, no lugar de noz moscada, também fica ótimo no molho branco e vocês também conversam sobre as texturas e diferentes espessuras da massa. O seu desejo aumenta e agora você tem um cúmplice. Um cara que vai te dar cobertura e vai te ajudar a encontrar os melhores pratos da cidade. Você chega em casa, olha para o jiló e sente raiva dele. Mas você chega em casa feliz e começa a rejeitar o jiló. Cada dia uma desculpa. A esposinha, toda preocupada, muda as receitas, incrementa o tempero, faz até doce de jiló, imagina isso, doce de jiló e mesmo assim você não empolga. Ela sente-se frustrada, pensa que “perdeu a mão” na cozinha, choraminga com a amiga. Ela percebe que apesar de não estar comendo jiló, apesar de estar alimentando-se menos em casa, você está aparentemente mais feliz e está até mais coradinho. É um desespero total, a esposinha sente culpa, não entende o que está acontecendo, começa a cozinhar aos quilos, faz de tudo e você, algumas vezes, para fazer com que ela sorria de vez em quando, come um pouquinho do preparado dela, dá um sorriso amarelo e pensa que está enganando alguém. No entanto você está enganando a você mesmo, porque ela percebe que algo errado está acontecendo, apenas não sabe o quê, e você sabe o quê, mas pensa que ela não percebe. E assim você vai levando a vida, tendo que comer macarrão com molho branco nas horas mais estranhas possíveis; não podendo partilhar esse prazer com ela, a tua companheira; se escondendo para que algumas pessoas não vejam e não saibam que você está de volta ao seu prato predileto; e ela, coitada, se matando internamente de dúvida, de medo, de angústia por pensar que ela está errando em algo. O tempo vai passando e vai acentuando as diferenças entre vocês, você começa a ver que ela, além de não gostar do seu prato predileto, também tem aversão à lasanha. Você sente raiva dela, afinal, por ela, você se privou por tanto tempo dessa gastronomia... e para que? Para comer jiló? Por favor, né? Mas a culpa é dela? Não é. A culpa é sua que evitou o conflito antes de casar; que pensou que poderia subestimar a si próprio e agüentar uma vida sem seu prato preferido; que julgou amá-la e quis preservar a relação a qualquer custo e não abriu a sua verdade para ela; a culpa é sua que pensou que ser inverdadeiro, mesmo que para proteger, era sinônimo de amor. Caro, amor é verdade. Quando você ama alguém, mesmo correndo o risco de perder essa pessoa, você deve ser verdadeiro com ela. Só podemos construir uma casa em cima de bases sólidas, senão um dia ela desmorona. Não resiste a ventos, tempestades, tremores e intempéries diversas. Assim é um relacionamento, precisa de bases sólidas para ser construído, para resistir ao tempo e às contingências da vida. Se você constrói um relacionamento em cima de verdades ocultas, em cima de meias-verdades, o que poderá acontecer quando essas coisas vierem à tona? Elas estremecerão o relacionamento, com o risco de ruir, parcial ou total. E quando ela souber que você anda comendo esse prato detestável ficará muito ofendida, magoada, sentindo-se ultrajada, enganada, passada para trás. Quer dizer que enquanto ela se desdobrava aqui com o jiló, criando mil receitas para lhe agradar, você andava fartando-se desse horrível e nojento macarrão com molho branco? E você nunca, nunca, nunca perguntou a ela porque ela não gosta desse prato, e ela vai dizer, entre gritos e soluços que ela odeia esse prato, do fundo da alma e do coração, porque quando era criança ela morou num internato que fazia esse macarrão três vezes na semana, e quando elas, as crianças não queriam comer, a madre empurrava goela abaixo essa comida nojenta, e que ela, quantas e quantas vezes, após o almoço foi ao banheiro e vomitou tudinho e depois disso caía na cama, febril e ainda com fome, sentindo ânsia só de pensar que dali a dois dias teria que comer essa porcaria de novo. E você come isso, escondido dela, e que ela também não gosta da lasanha porque a lasanha lembra o macarrão com molho branco, e só de sentir o cheiro parece que ela tem de novo dez anos de idade e está com a madre diante de si, empurrando-lhe mais uma colherada de macarrão goela abaixo. As acusações e mágoas começam, de parte a parte. Ela sentindo-se enganada, você achando que ela não está se esforçando para lhe entender. E eu te digo, nessa batalha, entre mortos e feridos, restarão apenas mortos.
E agora eu te pergunto: vale a pena dar esse passo, esse passo que tanto requer compasso e ritmo, o passo da construção que requer bases sólidas e pessoas inteiras, o passo que definirá toda a tua vida futura e vida de outra pessoa, dar esse passo assim, na incerteza dos sentimentos, na certeza de que você terá que continuar degustando macarrão com molho branco escondido, vale a pena fazer dessa forma? Vale a pena correr o risco de magoar profundamente a outra pessoa? Se eu fosse escolher hoje uma pessoa para minha vida, ela teria que gostar das mesmas coisas que eu, porque casamento é construção e partilha.
E agora eu te pergunto: vale a pena dar esse passo, esse passo que tanto requer compasso e ritmo, o passo da construção que requer bases sólidas e pessoas inteiras, o passo que definirá toda a tua vida futura e vida de outra pessoa, dar esse passo assim, na incerteza dos sentimentos, na certeza de que você terá que continuar degustando macarrão com molho branco escondido, vale a pena fazer dessa forma? Vale a pena correr o risco de magoar profundamente a outra pessoa? Se eu fosse escolher hoje uma pessoa para minha vida, ela teria que gostar das mesmas coisas que eu, porque casamento é construção e partilha.
Vce maravilhosamente linda
ResponderExcluirfabio_rubi